Entrevista à Revista Contra-Relógio em 2006

JOÃO GABBARDO, BOM EXEMPLO GAÚCHO

O secretário estadual da Saúde no Rio Grande do Sul, João Gabbardo dos Reis, é maratonista há mais de duas décadas e nosso assinante de longa data.  Aos 50 anos, corre diariamente pelas ruas da cidade e à beira do Guaíba, em média 90 quilômetros por semana. Seu maior problema é conciliar a rigidez dos treinos com a agenda apertada do cargo.  Por isso, não são raras as vezes que o intervalo de almoço é precedido por pelo menos uma hora de corrida. Musculação três vezes por semana também fazer parte da sua terapia contra o estresse e pelo bom desempenho no trabalho. Isso mesmo – é durante os treinos que ele diz ter as melhores idéias para enfrentar os problemas do dia-a-dia.

Gabbardo é conhecido como ferrenho defensor da prática de hábitos saudáveis,  e sempre que pode, fala de sua preocupação com a qualidade da alimentação e riscos da obesidade e sedentarismo. “Precisamos oferecer às pessoas, no futuro, a possibilidade de substituir os medicamentos, as internações hospitalares e as filas nos ambulatórios por uma boa alimentação, controlando o colesterol, o sal e o açúcar, sem cigarro, sem drogas e sem álcool.” Com uma dieta rica em frutas, verduras e fibras, ele reconhece que vez que outra exagera no final de semana. “Não abro mão do churrasco.”

Neste ano, Gabbardo participou das maratonas de Porto Alegre e Florianópolis – com tempos entre 3h30min e 3h40min –, pela primeira vez da Supermaratona de 50 km de Rio Grande, em um percurso de 50 quilômetros, e neste mês, estará correndo a de Curitiba. “A vontade de me inscrever em uma competição internacional é grande, mas, em função do trabalho, fica difícil de programar algo com tanto tempo de antecedência”, justifica. Uma de suas grandes alegrias é poder correr com os filhos Fernando e Vinícius de 21 e 23 anos, que, desde 2004, participam com ele de todas as maratonas. Nos primeiros 30 quilômetros, Gabbardo garante, os três seguem juntos. Depois, cada um continua a prova seguindo seu ritmo próprio. A seguir, uma entrevista do secretário exclusiva para a Contra-Relógio.

Como foi que a corrida começou a fazer parte de sua vida?

Iniciei em 1980, quando cursava o último ano de Medicina da UFRGS, por influência de dois professores (Dr. Gilberto Eckert e Dr. Mauro Boherer). O primeiro treino foi ao longo de toda da avenida Ipiranga, 20km, com um tênis kichute que resultou em bolhas por um semana.

A atividade física tem influência na saúde pública? No que ela contribui de fato?

A atividade física aumenta a qualidade de vida e diminui a incidência de doenças. Está provado que melhora a capacidade aeróbica, a composição corporal, a força muscular, a flexibilidade, o equilíbrio, reduz a pressão arterial, aumenta a densidade óssea, melhora o perfil lipídico, reduz a glicemia, além de melhorar o humor e combater a depressão. Quando consideramos os diferentes fatores de risco de morte por doença coronariana, vemos que 54% estão relacionados ao estilo de vida, e somente 12% referem-se a assistência médica. Estudos apontam que 5% dos custos da saúde no país são decorrentes da inatividade física. Nos Estados Unidos, o custo da inatividade física é estimando em 76 bilhões de dólares ao ano.

O que as instâncias governamentais tem feito para incentivar a população a trocar o sedentarismo pela atividade física?

Atualmente, existem incentivos financeiros para as prefeituras organizarem projetos junto a escolas públicas, com a utilização de praças e parques, aulas de ginástica para a terceira idade, dança, caminhadas orientadas e jogos esportivos. É importante destacar a iniciativa de vários municípios brasileiros que tem introduzido programas de Incentivo à Atividade Física com “Academias da Cidade”, propiciando aos seus usuários avaliação física e a prática de exercícios físicos regulares, acompanhados e com orientação nutricional. Temos os exemplos de Recife (onde começou o projeto), Belo Horizonte, Curitiba e Aracajú. O Programa Agita São Paulo hoje é reconhecido internacionalmente como modelo para a promoção de atividade física.

Como os maratonistas e corredores de rua podem contribuir em uma revolução pela saúde?

Adoramos o aplauso e o incentivo das pessoas que assistem nossas provas. Como é bom receber uma mensagem de apoio quando estamos lá pelo km 30 de uma maratona! Temos que retribuir incentivando as pessoas a praticarem atividade física. Será que estamos usando nosso exemplo para estimular nossos familiares, pais, avós, vizinhos, nossos amigos? Podemos ajudar a organizar grupos de caminhadas, participando como voluntários e levando outras pessoas a fazer parte. A Organização Mundial da Saúde define que para a saúde geral deve-se praticar no mínimo30 minutos de atividade física de intensidade moderada, na maioria dos dias da semana. Para prevenir ganho de peso corporal, recomenda-se 60 minutos de atividade física diariamente.

Porto Alegre é considerada uma das capitais com menor índice de sedentarismo, não?

É verdade. Um trabalho realizado pelo Ministério da Saúde entre 2002 e 2003, em 16 capitais, mostrou que Belém (28%) e Porto Alegre (30%) são as que possuem menor índice de sedentários, enquanto, por outro lado, João Pessoa (55%), Rio de Janeiro (44%) e Florianópolis (44%) são as capitais com maior índice. Isso prova que, apesar das praias, temos uma parcela enorme da população que não faz atividade física e não tem acesso a locais adequados. No entanto, Porto Alegre também é uma das capitais com maior índice de pessoas com sobrepeso.

Além da atividade física, o que é importante como mudança de comportamento para melhorar a saúde pública?

São três eixos fundamentais para redução das doenças não infecciosas, que podem ser evitadas pela introdução de hábitos saudáveis: incentivo da prática da atividade física, combate ao tabagismo, melhora da qualidade da alimentação. O tabagismo está associado a 40% de todos os casos de câncer e 90% quando se trata apenas de câncer de pulmão. A preocupação mais recente é com os ambientes públicos livres da fumaça de cigarro, pois os não fumantes são muito prejudicados pela tabagismo passivo. Aí é importante nossa reação em bares, restaurantes e casas de espetáculos, que não cumprem a lei que impede o fumo nestes locais. Países desenvolvidos, como EUA e Canadá, bem como a maioria dos países europeus, têm ou estão implantando leis que proíbem radicalmente fumar em ambientes públicos. No Brasil, infelizmente o poder da indústria do cigarro tem falado mais alto. Quanto à questão da alimentação, é importante a ingestão diária de frutas e legumes e a redução de gorduras (animal e gordura trans), sal e açúcar, além de alimentos ricos em colesterol e triglicerídeos. Estamos evoluindo na legislação que obriga os rótulos dos alimentos a indicarem componentes que são nocivos a saúde.

O que voce diria para quem acha que não tem tempo para conciliar uma vida esportiva, saudável, com uma agenda atribulada de trabalho, com falta de tempo?

Em primeiro lugar, nao acredito que alguém nao tenha 30 min diários para cuidar do que é mais importante para cada um de nós, que é a nossa saúde. Nestes 30 minutos, pode-se desenvolver alguma atividade física, como caminhar, nadar, andar de bicicleta, dançar etc. Podemos realizar algumas tarefas que deixamos de fazer, como lavar o carro, aparar a grama do jardim, ir a pé para fazer as compras no mercado, usar transporte coletivo e procurar descer ou embarcar a algumas paradas de distância do nosso trabalho. Outra mudança de hábito é deixar de usar o elevador em nosso trabalho ou residênciam fazendo uso da escada. São coisas simples, que podemos tornar agradáveis e que, com certeza, terão um impacto altamente positivo em nossa saúde.

9 Respostas para “Entrevista à Revista Contra-Relógio em 2006

  1. Parabéns pela dedicação. Também sou médico e corredor: participei de 5 maratonas (4 no Rio e 1 na tua PoA) e de uma ultrinha de 50 km (Teresópolis – Friburgo/RJ).
    Um grande abraço.

  2. Prezado Rogério: Obrigado pela visita. Não considero a prova Teresópolis – Friburgo uma ultrinha. Veja que coincidência, eu também corri em 2007, junto com um amigo médico de Mogi das Cruzes – SP. Largamos juntos e chegamos juntos no tapete, com o mesmo tempo, e chegamos logo depois de ti. Em 2009 vou fazer esta prova novamente e quem sabe nos encontramos lá. Será um grande prazer.
    63 Rogerio Cipriani M40 04:55:20 605 Acoruja
    64 Tjioe Tjia Sin M35 04:56:03 599 Pi Consultoria Esort
    65 Joao Gabbardo dos Reis M50 04:56:03 592 Academia 10
    Abraço,
    João Gabbardo dos Reis

  3. Henriqueta Solipa

    Parabéns a todos!

    Gosto muito de ler e de aprender… um dia gostava de conseguir fazer uma maratona, mas o meu tempo só me permite treinos para provas de 10 / 15kms…. mas no fim do ano quero ir à meia-maratona de Lisboa, sou portuguesa.

    Bom trabalho para todos vocês e boa sorte também.

  4. Henriqueta: Que bom ter uma visita portuguesa no blog. A distância que se corre não é o mais importante e sim a satisfação que ela nos traz. No entanto, com um pouco mais de tempo certamente poderás correr a meia maratona de Lisboa, que é uma prova muito famosa aqui no Brasil. Abraço,

  5. Oi João !
    Não sou médico mas já sabia de tudo isso não só lendo nas revistas de corrida, mas também nas revistas de saúde, e principalmente observando as origens da humanidade que há milhões de anos eram nomades, caçadores e coletores, e para sobreviver tinham que se deslocar constantemente e rapidamente, com o surgimento da agricultira localizada no começo a beira dos grandes rios, houve a possibilidade de sedentarização e consequente criação da cidades, é o surgimento da civilização com suas hierarquias com reis, governadores e prefeitos.
    Abraços !

    Marcos Viana “Pinguim”

    http://marcosvianapinguim.blogspot.com/

  6. sinval moreira aguiar

    parabens por voce ser medico e correr e melhor a inda ultra as pessoas me perguntam se uma pessoa que nao seja pobre como eu possa correr em alto nivel eu respondo que sim pois eu conheco corrida a 25anos sei que nao e fasil mais se eu que nao tenho estrutura tento correr porque que os ricos tambem nao podem

  7. João, por admirar seu empenho, incentivando os demais a pratica do esporte, gostaria de saber se podemos publicar esta sua entrevista em nosso site http://www.areadetreino.com.br. Antecipadamente te agradeço e boas provas!!!!

  8. Prezado Silvio: Fico muito orgulhoso em ter minha entrevista no site área de treino. Visito o site com alguma frequência pelo interesse de médico/maratonista com os temas de cardiologia e conteúdo científico. Eu agradeço a gentileza do pedido de autorização.

  9. Paulo Ribeiro Felisoni

    Olá Dr. João Gabbardo,
    Só agora, depois de 4 anos desta reportagem na Revista Contra Relógio, que a li. Estou lisongeado porque não só o conhecí pessoalmente como médico e um dos maiores ultramaratonistas do Brasil, como também conhecer alguém que ocupou a posição de secretário estadual de saúde do Rio Grande do Sul, um dos maiores estados do Brasil. São pessoas como o sr (formadores de opinião) que mais podem incentivar o combate ao sedentarismo (adulto e infantil) assim como o aumento de provas como Maratonas e Ultra Maratonas pelo nosso país. Parabéns e Muita Saúde para correr as Ultra Maratonas! Abraços, Paulo Ribeiro Felisoni (Paulinho ZOOM)

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