ONDE FRACASSAM OS CARDIOLOGISTAS?

TEMA PARA DEBATE DA ZERO HORA DE 15 DE AGOSTO. O AUTOR É O CARDIOLOGISTA JOÃO CARLOS GUARAGNA, PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA PUCRS.

As doenças cardiovasculares ainda lideram como as que mais matam em todo o mundo: um em cada três óbitos. O coração continua adoecendo silenciosamente e, assim, matando muita gente. Infelizmente, nós, cardiologistas, não somos suficientemente bons em prevenção. Nas últimas décadas, somente o controle do colesterol foi satisfatório, devido ao emprego de drogas redutoras de seus níveis. Diabetes tipo 2 aumentou, praticamente, em todas as regiões do planeta.

As drogas utilizadas, os “stents” coronarianos, a cirurgia cardíaca, os marcapassos e os desfibriladores automáticos implantáveis prolongaram a vida de muitos cardiopatas. Mas não conseguimos impedir o surgimento da doença. Como é difícil convencer nossos pacientes de que devem modificar seus hábitos de vida! Nossa dificuldade começa dentro das faculdades de Medicina. Desde o início, queremos ver doenças. O interesse pelo patológico é maior do que pelo funcionamento normal do corpo humano. Quando residentes, somos estimulados e nos excitamos diante da possibilidade de demonstrarmos nossas habilidades com procedimentos relacionados a salvar vidas.

Realmente, nenhum cardiologista esquece a poderosa sensação experimentada após recuperar alguém de uma parada cardíaca. As emergências e UTIs devem ter qualificação superior para garantir o melhor atendimento aos pacientes gravemente enfermos. Mas, se tivéssemos uma atenção preventiva melhor, será que um menor número desses pacientes não estaria ocupando espaço nessas emergências? Quem sabe não teríamos menos filhos sofrendo pela morte súbita de seus pais? Não perderíamos menos amigos queridos?

Pouca atenção damos à prevenção de forma efetiva. Congressos de cardiologia não incluem mais do que 10% de temas com foco na profilaxia primária. Em 35 anos de profissão, presenciei uma grande evolução no diagnóstico e tratamento das doenças cardiovasculares. No controle da hipertensão arterial, foi notável o surgimento de drogas eficazes e seguras. Entretanto, menos de 20% dos pacientes com pressão alta fazem o tratamento prescrito por seus médicos. Aumentam de peso, continuam sedentários e fumando. E ainda temperam tudo isso com muito sal! Não é um fracasso?

Quando determinamos a eficácia da medicina atual, quanto mais doente estiver uma pessoa, melhor. Portanto, temos um sistema de cuidados das doenças em vez de um sistema de cuidados de saúde. O custo econômico da prevenção primária não é elevado. A sua dificuldade está na conscientização. A abordagem será mais efetiva quanto mais precoce, isto é, junto aos jovens. Estes aprendem mais rápido e, assim, podem ensinar aos adultos no núcleo familiar.

Caros pacientes, os cardiologistas pedem socorro. Ajudem-nos, que estarão beneficiando a si próprios.

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5 Respostas para “ONDE FRACASSAM OS CARDIOLOGISTAS?

  1. Muito boa esta reflexão sobre tema de tamanha importância.
    Tomei a iniciativa de iniciar um novo blog http://www.tanaruapelotas.blogspot.com com o objetivo de levar a pratica do exercicio fisico as pessoas sedentarias de minha cidade. É um trabalho em fase inicial Conto com a colaboração de todos.

  2. Dionisio Silvestre

    Resguardada as devidas proporções, penso que o debate transcende à buscar explicações sobre eventual falha ou deficiência na prevenção. A rigor, o Médico Cardiologista, no campo da prevenção, há que contar com absoluta e imprescindível colaboração do pretenso paciente. Não sou médico e percebo a árdua tarefa de médicos, fisiologistas, nutricionistas, professores de educação física e demais profissionais ligados à saúde orgânica, em convencerem determinados segmentos de nossa sociedade a praticarem atividades, saindo da inércia em que se encontram. Ressaltando também da importância relacionada aos hábitos saudáveis na alimentação.

  3. Diego Bento

    Concordo plenamente com a idéia central do colega nesse referido artigo. Porém podemos afirmar sem temor de erro que o que tange a pesquisa médica nos dias de hoje é o fator econômico, ou seja, o lucro. O que as empresas que financiam os grandes trials nas principais revistas médicas iriam ganhar se, por exemplo, comprovassem que uma medida de baixo custo iria diminuir em 30% qualquer evento cardiovascular (IAM, AVC, Angina, Morte Súbita ou qualquer outra patologia)? Não iriam ganhar nada além da notoriedade de tal descoberta, não iriam vender tratamentos nem novos métodos diagnósticos que aumentam de maneira exponencial os custos para o estado, hospitais, planos de saúde e, principalmente, para o paciente (que de uma maneira indireta vai arcar com todo esse custo).
    Creio eu que o primeiro passo a ser dado é o estado assumir esse papel de promotor direto ou indireto da saúde. Temos que ter motivados e competentes administradores profissionais na área da prevenção e da promoção da saúde que consigam abranger uma camada cada vez maior da população com medidas adequadas visando o bem estar. Além disso devemos estimular a pesquisa clínica no campo da prevenção primária, não podemos esperar um grande laboratório financiar um estudo que, conforme o resultado, irá prejudicar seus rendimentos.
    Buenas, o assunto é muito complexo, mas acho que consegui expressar meu desabafo. Acho que o efeito do colorado peleador BICAMPEÃO DA LIBERTADORES DA AMÉRICA….heheheh
    Abraço Juanito!!!!
    Diego Bento

  4. Fernando

    Que ironia o fato de as pessoas adoecerem pelo acúmulo de gordura (energia química), em uma época em que se busca por uma fonte de energia limpa e barata.

  5. João,
    Há dias venho pensando sobre o artigo do Dr. João Carlos. Como cardiologista me pergunto sempre onde é que estamos deixando de atuar para doença coronária estar desenvolvendo cada vez mais cedo.
    Concordo com o Dionisio não é fácil a tarefa de fazer os pacientes aderirem as MEV (Modificações do Estilo de Vida), por outro lado muitos cardiologista também não praticam o que orientam ao paciente. Esse talvez seja o maior questionamento deles: Se o meu médico não faz nada disso porque devo fazer?
    Concordo também com o Diego, que durante muitos anos a industria farmacêutica investiu apenas no tratamento e não na prevenção, por vários motivos. Minha esperança é que há um novo movimento dentro da cardiologia voltado para a prevenção. A Sociedade Europeia de Cardiologia institui o EUROPREVENT há aproximadamente 3 anos e o Brasil seguindo essa tendência realizou em julho o primeiro BRASIL PREVENT. Esse primeiro congresso ainda teve um participação pequena dos cardiologista, porém significante com nomes relevantes da nossa cardiologia.
    É provável que o futuro da cardiologia esteja mudando e é muito importante para nós o apoio dos nossos pacientes nessa ardua tarefa de valorizar as MEVs.

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